Navegando a bordo do
Tainha I Seu Adão divagava pensamentos de um passado glorioso. Flutuavam
emoções desconhecidas para um indivíduo humilde e sem instrução. Quando o
conheci buscava seu sustento. Com água pelo joelho e portando uma velha tarrafa
esperava ansioso a chegada dos botos, seus velhos aliados de pesca.
- Ô guri, não tá vendo que vai assustar as tainha? - Repreendeu-me para que eu
parasse de bater as mãos na água a poucos metros dele.
- O rio Tramandaí já
não é mais o mesmo! - Dizia ele em tom de desânimo.
Nas longas conversas,
onde ele falava e eu ouvia, Seu Adão parecia insatisfeito com o crescimento da
cidade, sempre mencionava a construção da nova ponte como sendo o marco para o
início da escassez de peixes. Reclamava dos veranistas, que para ele, não
sabiam pescar e com isso afastavam os poucos peixes que haviam restado.
O velho pescador de
aparência fria, quase sem expressão, praticamente não sorria. Nas poucas vezes
que o vi esboçar um sorriso era quando falava de suas aventuras do passado,
quando o rio era farto e ele, com habilidade e destreza, conseguia obter grande
quantidade de peixes. Estas aventuras estavam em um passado muito remoto que
quase ninguém próximo a ele lembrava. Parecia que Seu Adão tinha medo do
presente, fingia que era feliz no passado, mas não esperava nada do futuro.
O medo do presente não
impedia Seu Adão de viver, mesmo com um escudo carrancudo que o protegia de
qualquer tipo de lazer que por ventura pudesse lhe acometer, ele não se
permitia ignorar minha companhia. Quando eu estava triste ele era preciso em
constatar sem perguntar nada. Nestes dias fazia um grande esforço para amenizar
o leque de reclamações, introduzindo em suas histórias mensagens de superação.
Tentava assim me animar para que eu pudesse encontrar dentro de mim o alento
suficiente para enfrentar minha tristeza, que na infância é tão passageira
quanto chuva de verão.
Sempre que eu chegava à
margem do rio Seu Adão arrumava um pretexto para iniciar nossas conversas,
muitas vezes interrompia suas tarrafadas para me contar como aquele rio já
havia sido próspero e como as coisas pioraram com a chegada de tanta gente.
Tornei-me o ouvinte que Seu Adão nunca tivera, sabia da sua solidão e tinha a
certeza de que estava fazendo para ele o que ele já fizera quando criança.
Quando a penumbra da
noite se aproximava e Seu Adão me mandava ir pra casa, via sua tristeza no
olhar. Saía em disparada sem olhar pra trás, pois sabia que quando chegasse em
casa não escaparia da bronca.
O tempo foi passando e
cada vez menos eu ia até a margem do rio conversar com Seu Adão. Sempre tive a
sensação de estar prestando uma ajuda ou talvez até auxiliando aquele senhor
tão solitário que não tinha com quem conversar, mas hoje não tenho dúvidas de
que quem fazia a boa ação era ele que dispensava horas do seu dia me dando
atenção e carinho.
A minha infância salta
aos olhos todas as vezes que me lembro do seu jeito rabugento de falar e até
quando me repreendia por ter feito alguma bobagem com seus apetrechos de pesca.
Aquela infância que não seria a mesma sem as tardes inteiras escutando as
palavras singelas de uma pessoa pura, que fazia da sua existência uma leve
brisa ao luar. Seu Adão jamais imaginou que um dia suas histórias pudessem sair
dos pensamentos e entrar nos livros, mas tinha convicção que ficariam gravadas
em minha memória.
Hoje me frustra não ser
um “Seu Adão” pra ninguém, neste mundo corrido de pouco tempo e muita agitação
se perdeu o costume da conversa alongada, sem pressa, sem horário. As coisas
mudam, mas as boas histórias ficam. Aquele senhor ranzinza que reclamava de
tudo me ensinou a dar importância às pessoas, deixar as coisas de lado e
conversar.
Neste momento de adeus
espero que Seu Adão descanse em paz e que lá no céu continue contando suas
histórias com a pureza e a humildade que esbanjou durante toda sua vida.
Enquanto o caixão é
fechado sinto uma lágrima escorrer pelo meu rosto, esta lágrima viajou no tempo
vindo lá da minha infância se despedir do velho pescador que fez parte dela.
Nilmar Oliveira