quarta-feira, 15 de abril de 2015

DESPEDIDA

Navegando a bordo do Tainha I Seu Adão divagava pensamentos de um passado glorioso. Flutuavam emoções desconhecidas para um indivíduo humilde e sem instrução. Quando o conheci buscava seu sustento. Com água pelo joelho e portando uma velha tarrafa esperava ansioso a chegada dos botos, seus velhos aliados de pesca.
- Ô guri, não vendo que vai assustar as tainha? - Repreendeu-me para que eu parasse de bater as mãos na água a poucos metros dele.
- O rio Tramandaí já não é mais o mesmo! - Dizia ele em tom de desânimo.
Nas longas conversas, onde ele falava e eu ouvia, Seu Adão parecia insatisfeito com o crescimento da cidade, sempre mencionava a construção da nova ponte como sendo o marco para o início da escassez de peixes. Reclamava dos veranistas, que para ele, não sabiam pescar e com isso afastavam os poucos peixes que haviam restado.
O velho pescador de aparência fria, quase sem expressão, praticamente não sorria. Nas poucas vezes que o vi esboçar um sorriso era quando falava de suas aventuras do passado, quando o rio era farto e ele, com habilidade e destreza, conseguia obter grande quantidade de peixes. Estas aventuras estavam em um passado muito remoto que quase ninguém próximo a ele lembrava. Parecia que Seu Adão tinha medo do presente, fingia que era feliz no passado, mas não esperava nada do futuro.
O medo do presente não impedia Seu Adão de viver, mesmo com um escudo carrancudo que o protegia de qualquer tipo de lazer que por ventura pudesse lhe acometer, ele não se permitia ignorar minha companhia. Quando eu estava triste ele era preciso em constatar sem perguntar nada. Nestes dias fazia um grande esforço para amenizar o leque de reclamações, introduzindo em suas histórias mensagens de superação. Tentava assim me animar para que eu pudesse encontrar dentro de mim o alento suficiente para enfrentar minha tristeza, que na infância é tão passageira quanto chuva de verão.
Sempre que eu chegava à margem do rio Seu Adão arrumava um pretexto para iniciar nossas conversas, muitas vezes interrompia suas tarrafadas para me contar como aquele rio já havia sido próspero e como as coisas pioraram com a chegada de tanta gente. Tornei-me o ouvinte que Seu Adão nunca tivera, sabia da sua solidão e tinha a certeza de que estava fazendo para ele o que ele já fizera quando criança.
Quando a penumbra da noite se aproximava e Seu Adão me mandava ir pra casa, via sua tristeza no olhar. Saía em disparada sem olhar pra trás, pois sabia que quando chegasse em casa  não escaparia da bronca.
O tempo foi passando e cada vez menos eu ia até a margem do rio conversar com Seu Adão. Sempre tive a sensação de estar prestando uma ajuda ou talvez até auxiliando aquele senhor tão solitário que não tinha com quem conversar, mas hoje não tenho dúvidas de que quem fazia a boa ação era ele que dispensava horas do seu dia me dando atenção e carinho.
A minha infância salta aos olhos todas as vezes que me lembro do seu jeito rabugento de falar e até quando me repreendia por ter feito alguma bobagem com seus apetrechos de pesca. Aquela infância que não seria a mesma sem as tardes inteiras escutando as palavras singelas de uma pessoa pura, que fazia da sua existência uma leve brisa ao luar. Seu Adão jamais imaginou que um dia suas histórias pudessem sair dos pensamentos e entrar nos livros, mas tinha convicção que ficariam gravadas em minha memória.
Hoje me frustra não ser um “Seu Adão” pra ninguém, neste mundo corrido de pouco tempo e muita agitação se perdeu o costume da conversa alongada, sem pressa, sem horário. As coisas mudam, mas as boas histórias ficam. Aquele senhor ranzinza que reclamava de tudo me ensinou a dar importância às pessoas, deixar as coisas de lado e conversar.
Neste momento de adeus espero que Seu Adão descanse em paz e que lá no céu continue contando suas histórias com a pureza e a humildade que esbanjou durante toda sua vida.
Enquanto o caixão é fechado sinto uma lágrima escorrer pelo meu rosto, esta lágrima viajou no tempo vindo lá da minha infância se despedir do velho pescador que fez parte dela.

Nilmar Oliveira