domingo, 21 de junho de 2015

SEM LÓGICA

Definitivamente a lógica é uma palavra que passa longe das decisões proferidas em relação à educação em nosso país. Com o pretexto e a ideia utópica de salvar todos, acaba-se prejudicando a maioria.
Não são raros os exemplos de alunos que vão para a escola com o único objetivo de atrapalhar, perturbar, desrespeitar e transgredir a todas as regras necessárias à convivência dentro do ambiente escolar, além de estarem se prejudicando estes alunos impedem que seus colegas consigam estudar e aprender. Depois que a escola esgota todas as possibilidades de inserção desse aluno, resta apenas preservar e proteger àqueles que estão sofrendo com as atitudes desse ou daquele que não conseguiu se adaptar ao convívio escolar. Qual seria a solução nesse caso?
Qualquer imbecil diria que remover ou realocar quem está atrapalhando seria a atitude mais plausível em uma situação dessa natureza. Mas estamos falando de educação, e o que parece óbvio não fica tão óbvio assim. Lembram daquela historia de Justiça cega? Pois é, e como ela é cega, não imaginava que fosse tanto.
Para garantir o direito de um a Justiça retira esse mesmo direito de muitos mandando a escola permanecer com esse aluno até as últimas consequências. E o que a escola pode fazer? Nada, autonomia também é uma palavra que está muito distante do universo escolar. E o que você tem a ver com isso? Nada, a menos que seu filho esteja na mesma sala de um desses protegidos pela lei.

quarta-feira, 15 de abril de 2015

DESPEDIDA

Navegando a bordo do Tainha I Seu Adão divagava pensamentos de um passado glorioso. Flutuavam emoções desconhecidas para um indivíduo humilde e sem instrução. Quando o conheci buscava seu sustento. Com água pelo joelho e portando uma velha tarrafa esperava ansioso a chegada dos botos, seus velhos aliados de pesca.
- Ô guri, não vendo que vai assustar as tainha? - Repreendeu-me para que eu parasse de bater as mãos na água a poucos metros dele.
- O rio Tramandaí já não é mais o mesmo! - Dizia ele em tom de desânimo.
Nas longas conversas, onde ele falava e eu ouvia, Seu Adão parecia insatisfeito com o crescimento da cidade, sempre mencionava a construção da nova ponte como sendo o marco para o início da escassez de peixes. Reclamava dos veranistas, que para ele, não sabiam pescar e com isso afastavam os poucos peixes que haviam restado.
O velho pescador de aparência fria, quase sem expressão, praticamente não sorria. Nas poucas vezes que o vi esboçar um sorriso era quando falava de suas aventuras do passado, quando o rio era farto e ele, com habilidade e destreza, conseguia obter grande quantidade de peixes. Estas aventuras estavam em um passado muito remoto que quase ninguém próximo a ele lembrava. Parecia que Seu Adão tinha medo do presente, fingia que era feliz no passado, mas não esperava nada do futuro.
O medo do presente não impedia Seu Adão de viver, mesmo com um escudo carrancudo que o protegia de qualquer tipo de lazer que por ventura pudesse lhe acometer, ele não se permitia ignorar minha companhia. Quando eu estava triste ele era preciso em constatar sem perguntar nada. Nestes dias fazia um grande esforço para amenizar o leque de reclamações, introduzindo em suas histórias mensagens de superação. Tentava assim me animar para que eu pudesse encontrar dentro de mim o alento suficiente para enfrentar minha tristeza, que na infância é tão passageira quanto chuva de verão.
Sempre que eu chegava à margem do rio Seu Adão arrumava um pretexto para iniciar nossas conversas, muitas vezes interrompia suas tarrafadas para me contar como aquele rio já havia sido próspero e como as coisas pioraram com a chegada de tanta gente. Tornei-me o ouvinte que Seu Adão nunca tivera, sabia da sua solidão e tinha a certeza de que estava fazendo para ele o que ele já fizera quando criança.
Quando a penumbra da noite se aproximava e Seu Adão me mandava ir pra casa, via sua tristeza no olhar. Saía em disparada sem olhar pra trás, pois sabia que quando chegasse em casa  não escaparia da bronca.
O tempo foi passando e cada vez menos eu ia até a margem do rio conversar com Seu Adão. Sempre tive a sensação de estar prestando uma ajuda ou talvez até auxiliando aquele senhor tão solitário que não tinha com quem conversar, mas hoje não tenho dúvidas de que quem fazia a boa ação era ele que dispensava horas do seu dia me dando atenção e carinho.
A minha infância salta aos olhos todas as vezes que me lembro do seu jeito rabugento de falar e até quando me repreendia por ter feito alguma bobagem com seus apetrechos de pesca. Aquela infância que não seria a mesma sem as tardes inteiras escutando as palavras singelas de uma pessoa pura, que fazia da sua existência uma leve brisa ao luar. Seu Adão jamais imaginou que um dia suas histórias pudessem sair dos pensamentos e entrar nos livros, mas tinha convicção que ficariam gravadas em minha memória.
Hoje me frustra não ser um “Seu Adão” pra ninguém, neste mundo corrido de pouco tempo e muita agitação se perdeu o costume da conversa alongada, sem pressa, sem horário. As coisas mudam, mas as boas histórias ficam. Aquele senhor ranzinza que reclamava de tudo me ensinou a dar importância às pessoas, deixar as coisas de lado e conversar.
Neste momento de adeus espero que Seu Adão descanse em paz e que lá no céu continue contando suas histórias com a pureza e a humildade que esbanjou durante toda sua vida.
Enquanto o caixão é fechado sinto uma lágrima escorrer pelo meu rosto, esta lágrima viajou no tempo vindo lá da minha infância se despedir do velho pescador que fez parte dela.

Nilmar Oliveira

segunda-feira, 16 de março de 2015

LIBERDADE DE EXPRESSÃO TAMBÉM

Não posso ser tão irresponsável defendendo algo que não vivi e que também não estudei o suficiente para fazer testemunho contrário muito menos favorável. No entanto, gostaria de fazer alguns questionamentos que talvez possam ser inúteis, mas que no mínimo servirão para uma breve reflexão.
Observo nos argumentos dos mais críticos ao Regime Militar a repetição constante de uma tecla: o fim da liberdade de expressão. Confesso que este aspecto democrático não está no topo das minhas prioridades e jamais renunciaria a necessidades básicas em razão de ter o direito de falar o que penso onde quero.
Antes que alguém diga que o Regime Militar também não fornecerá as necessidades básicas, além de muitos outros pontos negativos, ressalto que não é este o ponto de debate deste artigo. Desejo permear o debate pelo questionamento da supervalorização da liberdade de expressão.
Suspeito que aqueles que colocam a liberdade de expressão no topo de suas prioridades nunca tenham passado por momento de desespero em um hospital SUS aguardando auxílio para um ente querido à beira da morte, talvez não se importem que seus filhos sejam atendidos por professores mal pagos em prédios caindo os pedaços ou também fiquem conformados com a falta de segurança latente em nossas cidades.
Hoje temos tanta certeza da liberdade que a única coisa que podemos realmente fazer é falar, e falar que somos livres pra falar. Nossa liberdade está restrita à opinião, pois é a única coisa que não temos que pagar para ter, o restante, só tem acesso quem paga além dos impostos.
Trocaria sem pestanejar toda essa “liberdade da nossa democracia” por saúde, educação e segurança. Antes não ter o que criticar do que “poder” criticar tudo a todo o momento. É lógico que o caminho para se chegar até este desenvolvimento não é acabar com a democracia, que no Brasil não é tão democrática assim, mas é preciso eleger prioridades que realmente melhorem a vida das pessoas.

sábado, 7 de março de 2015

Verdades inconvenientes

Com o advento da internet e a disseminação instantânea da informação, está cada vez mais difícil esconder, ocultar e omitir certas verdades inconvenientes. Enquanto uns estão distraídos pelos encantos do mundo moderno outros preferem habitar um universo fantasioso que só existe em sua imaginação.
Quando algumas verdades vêm à tona, e de certa maneira tumultuam o mundo imaginário do segundo grupo, estes indivíduos se sentem incomodados. Neste momento sobra para o interlocutor da verdade: “Com que direito alguém pode bagunçar uma estrutura tão bem arrumadinha?” “Quem você pensa que é para estragar minha fantasia?” Desautorizar o interlocutor é o primeiro ato de negação das verdades.
A aceitação de uma realidade nada animadora não ocorre com aqueles que são beneficiados por ela. Na história não conseguimos encontrar nem um comerciante de escravos que se indignasse com a escravidão.
Se a ignorância é uma bênção eu não sei, mas sem dúvida a negação da verdade, em muitos casos, sossega a alma e conforta o coração.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Jogando a toalha

A luta terminou companheiro. E desta vez não estou falando de política. Com o término da II Jornada Pedagógica de Xangri-Lá é essa a conclusão que se pode chegar a partir da fala dos palestrantes presentes ao evento. O discurso é sempre o mesmo, mas agora ele vem com uma acidez mais direta e mortal.
Primeiramente a maioria, para agradar, faz um breve manifesto sobre os baixos salários dos professores, em seguida o rumo da conversa é alterado para a abnegação, para o amor, para a relevância do “ser professor”. Pode-se constatar com isso que cada um deve buscar uma valorização no interior do seu inconsciente, pois a valorização externa não virá tão cedo. Para fechar esse discurso vem uma mensagem, um pouco adaptada, ressuscitada da época da Ditadura: “Magistério, ame-o ou deixe-o”.
Os mais românticos continuam acreditando que a “vocação” e boa vontade faz bons profissionais, mera ilusão. Casos isolados existem, entretanto, não se pode justificar a regra pela exceção. O problema da formação de professores não está nos cursos, mas sim na atratividade da carreira. Enquanto a remuneração dos professores for pífia os mais aptos não escolherão a sala de aula como destino.
Por mais que se façam cursos, seminários e palestras, onde especialistas em “enrolação” pedem que se extraia mais do mesmo, não teremos avanços, pois nossa sociedade não valoriza a figura do professor, por mais qualificado que ele seja. O bom desempenho da atividade docente depende do olhar do aluno, não basta o professor ter a autoestima nas alturas e o aluno não corroborar com esse juízo. Os professores não criaram o estigma do professor pobre coitado. Este é fruto de longos anos de desprezo e desamparo, que fazem das licenciaturas, as últimas opções da maioria esmagadora dos universitários brasileiros.
         Nobre professor do Brasil, sua valorização está dentro de você. Quando encontrar, por favor, empreste-me um pouco, pois minha conta de luz está atrasada.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Passinho à direita

As medidas anunciadas pelo governo federal sobre algumas alterações nos benefícios concedidos pela previdência social podem ter passado batidas para muitas pessoas, mas sem dúvida elas representam uma enorme guinada no que se refere às políticas desenvolvidas pelo PT nessa última década.
Sempre defendi a tese de que o PT não representaria a “esquerda” em sua essência, no entanto, os argumentos que eu utilizava só eram observados pelos mais atentos. Já o conjunto de medidas anunciadas no apagar das luzes de 2014, não só pode ser percebido a quilômetros de distância, como vai interferir diretamente na vida da maior parte da população do país.
Desde a ascensão de Lula ao poder, muitas bandeiras petistas foram sendo abandonadas e convicções partidárias foram varridas pra baixo do tapete. Alguém se lembra da CPMF? Ferozmente criticada pelo PT quando oposição ela virou a salvação para Lula e sua turma quando este já era presidente. Dentre tantas incoerências me parece que o PT está se lixando e que não vê mais necessidade em ocultar seus atos e omissões.
Iniciando seu quarto mandato o governo petista adota medidas de austeridade que demonstram que o tamanho do problema financeiro do Brasil é muito maior do que podíamos imaginar. Como todos os governos fizeram o PT também irá buscar a solução nos sempre sacrificados trabalhadores.
Estou curioso para saber o que a oposição acha sobre esse assunto. Será que hoje critica medidas que outrora defendeu? Coerência nunca foi o forte dos políticos brasileiros, mas a situação está cada vez pior e pode se tornar insustentável logo adiante. Se já fôssemos um povo politizado o país estaria fervendo neste momento, porém, no Brasil o ano começa só depois do carnaval.
Não sei dizer se tais medidas podem melhorar as finanças brasileiras, entretanto é importante que se diga que quando as coisas não saem do jeito que foram planejadas quem paga a conta é o trabalhador. Neste nosso sistema é assim: o lucro é meu e o prejuízo é nosso!

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Ano Novo. Vida nova?

A Terra completou mais uma volta em torno do Sol, e agora entramos no ano 2015 da Era Cristã. Certamente você já andou fazendo suas promessas de fim de ano, aquelas que nunca ultrapassam o carnaval, ou aquelas que nem são iniciadas, pois já foram programadas para depois do carnaval. E com toda a agitação do verão brasileiro quando chega o carnaval tudo vira festa e... Do que mesmo eu estava falando?
Gosto do teor dessas promessas. Tem gente que promete que vai respeitar a dieta, outros prometem que vão parar de beber e tem uns que juram de pés juntos que nunca mais vão votar em corruptos. Quem nunca fez uma promessa dessas que atire a primeira pedra.
As grandes mudanças em nossas vidas não acontecem da noite pro dia e a grande maioria das pessoas vai passar por toda a sua existência e não vai apresentar alterações comportamentais significativas. A personalidade de cada indivíduo se constrói no máximo até os 15 anos de idade, depois disso só serão possíveis mudanças drásticas se o próprio indivíduo tiver muita vontade em estabelecê-las.
Isso vale para os relacionamentos. Muitos casamentos são interrompidos justamente porque uma das partes quer transformar o outro na sua imagem e semelhança. Logicamente não vai conseguir e certamente o conflito estará estabelecido. Case com quem você conhece e não com um projeto que será finalizado no futuro.
Entretanto não se pode confundir personalidade com intransigência. Somos seres adaptáveis e certos ajustes de comportamento são necessários, tanto em função de convivência quanto por motivos de saúde. Com isso a máxima: “Eu sou assim, e quem quiser, me aceite do jeito que sou”, não pode ser considerada ao pé da letra.

Somos como pedras que tanto podem ser a base sólida de uma muralha quanto podem virar a matéria prima de uma bela escultura. A pedra da muralha continua sendo pedra, da mesma forma que a pedra da escultura. Mas, diferente das pedras, temos o poder de escolha. Nossa utilidade e importância dependem das circunstâncias e do modo como reagimos a elas.