sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Extremos

“O autoritarismo aliado à subordinação compulsória cria traumas e dissemina a insegurança, entretanto, a liberdade em demasia financia a ignorância e a má educação, o ponto de equilíbrio entre estes extremos deve ser o objetivo de qualquer sociedade.”
Toda sociedade deve primar por valores sólidos, que não sejam vulneráveis a fatos provisórios e superficiais. Quando falo em liberdade em demasia me refiro à total relatividade pela qual estamos sendo assolados atualmente. Acreditar que a verdade não existe e que tudo é relativo é um equívoco.
Não quero parecer moralista tampouco arbitrário, mas penso que parâmetros construídos durante séculos sejam essenciais ao desenvolvimento de um povo. Isso não significa que não poderão ocorrer mudanças de comportamento, no entanto, essas mudanças serão gradativas e acompanhadas por um processo de aperfeiçoamento social que continuará respeitando os valores mais primordiais da sociedade em questão.
Já o autoritarismo é o extremo pouco aconselhável para impor ideias e preservar (ou criar) valores algumas vezes deturpados. Sistemas autoritários não se eternizam porque são frutos da vontade de um grupo reduzido, que com o tempo se desgasta e acaba sufocado pela massa. Quando a vontade geral de um povo se refletir em um conjunto de ações objetivando o bem comum teremos a construção de valores intransponíveis que atravessarão séculos.
Sistemas autoritários são precedidos por perturbação social e falta de consciência política. Temo que nosso país esteja em uma fase próxima dessa situação, onde boa parte da sociedade, não sabendo lidar com essa “liberdade em demasia” acabe sucumbindo, fazendo com que todos sejam submetidos novamente a um sistema antidemocrático, ou seja, quando uma criança não sabe brincar com um brinquedo novo, este lhe é tirado antes que ela o quebre.
Espero que nosso país encontre um caminho, que nosso povo aprenda a “brincar”. Seria um grande retrocesso uma interrupção no nosso tão jovem processo democrático. É preciso utilizar a liberdade para evoluir, para adquirir conhecimentos. Essa liberdade, que outrora foi tão rara, hoje está sendo completamente desvalorizada.

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Muito prazer, professor do seu filho

Final de ano letivo é tempo de conhecer os pais de alguns alunos. Muitos desses encontros não são amistosos, pois geralmente os pais de final de ano têm filhos que não apresentaram um rendimento suficiente até o momento. Nesses encontros é um festival de: “Ninguém me avisou”, “não recebi nenhum bilhete”, “é que eu trabalho direto”, “não tem como fazer um trabalhinho?”, “estão pegando no pé do meu filho”, “vou procurar os meus direitos”, e por aí vai.
Essa é uma realidade que todas as escolas enfrentam nessa época do ano. Alguns pais delegam à escola a tarefa de educar seus filhos de forma integral, sendo assim, não acompanham a vida escolar deles. O que esses pais não sabem é que a escola não substitui e nunca vai substituir a família em alguns aspectos referentes à educação das crianças.
O maior sintoma da falta familiar na educação é o fato dos responsáveis estarem constantemente sendo chamados na escola fora das datas básicas (entrega de boletins e conselhos de classe). Nem sempre os chamados refletem essa situação, mas nos casos de indisciplina e mau comportamento o percentual é bem elevado. Aliás, a indisciplina e o mau comportamento invariavelmente vêm acompanhados com o baixo desempenho escolar.
Não sou um daqueles defensores da participação diária dos pais na escola. Até penso que o ambiente escolar perde um pouco da sua espontaneidade com a presença corriqueira dos pais, mas isso não chega a prejudicar. O que realmente prejudica é o descaso. E com uma possível reprovação no fim do ano esse descaso pode virar desespero, aí sobra pra todo mundo.
Não é preciso ir todos os dias até a escola para participar da educação de seu filho. Simplesmente dar respaldo aos professores já seria meio caminho andado. Como o ano letivo começa em março, não vai adiantar tentar “salvar” um ano em um mês, isso pode ser desastroso para todos, visto que a vislumbrada “salvação” vai acabar promovendo a reincidência e a má educação.

Uma família educadora sem a escola faz muito por uma criança. Entretanto, a escola sem a base familiar faz quase nada por ela.

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Sobre as cotas nas universidades federais

Resultados obtidos com programas semelhantes às cotas nas universidades públicas são imediatos. Muitos estudantes ficam satisfeitos com a chance de ingressar em uma universidade de qualidade além de tê-la de modo gratuito. Isso é ótimo para essas pessoas e que bom que elas tiveram essa oportunidade, mas isso não é o suficiente para acabar com as desigualdades de oportunidades.
A grande verdade é que a educação básica pública continua às moscas. O investimento pesado em educação básica pública tornaria o programa de cotas temporário e dispensável em longo prazo, só que isso demora, não traz satisfação imediata, além de não garantir um bom desempenho nas urnas a cada quatro anos.
Parece-me que de forma inconsciente (tomara) o governo vai aumentar o número de pessoas que, tendo condições, vai optar por matricular seus filhos em uma escola particular de melhor qualidade. Reconhecendo assim, a falência da educação básica pública.
Infelizmente a política de cotas é mais um programa que vem remediar. É um projeto paliativo que deveria ser acompanhado com o aumento dos investimentos em educação pública. Só os investimentos em qualidade na educação pública podem trazer justiça à nossa sociedade. Desta forma a grande massa de estudantes de escolas públicas chegaria ao vestibular de qualquer universidade com igualdade de condições perante os concorrentes provenientes das escolas particulares.
O fato é que alguns estão sendo puxados para um patamar superior, enquanto que a grande maioria continua submetida a uma escola precária com professores desvalorizados e mal pagos, vislumbrando um emprego qualquer em um país economicamente promissor.
O Brasil é um país que ainda tem um longo caminho pela frente para apresentar avanços sociais que não sejam frutos de projetos artificiais. Tais avanços só serão possíveis quando o Estado acreditar e investir no potencial das pessoas, deixando de ser assistencialista e proporcionando a cada indivíduo a condição de ser o senhor do seu próprio destino.

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

A polêmica do shortinho

À medida que a temperatura vai subindo com a proximidade da estação mais quente do ano, nossas escolas são massivamente invadidas por shortinhos minúsculos vestidos por meninas cada vez mais jovens. Não é difícil encontrar expressões escandalizadas com a situação. Há até quem se dirija às secretarias das escolas para denunciar o fato.
Tratando-se de casos isolados, caberia uma intervenção imediata e precisa dos educadores, mas para o meu espanto o número de casos é significativo. A polêmica do shortinho é mais um sintoma da crise pela qual nossa sociedade está passando. Muitos que são contrários ao shortinho na escola condenam a direção pela falta de fiscalização e até pela omissão ao fato, mas esquecem de que muitas dessas meninas saíram de casa sendo observadas por seus responsáveis que não censuraram (ou censuraram sem eficácia) o traje inadequado ao ambiente escolar.
Novamente nos deparamos com o debate sobre o papel da escola. Será que diretores, professores e funcionários têm maior autoridade sobre as roupas que os alunos podem (devem) vestir para ir à escola? E o uniforme? O uniforme enfrenta uma tremenda resistência dos alunos e dos pais. Dos alunos porque muitos não vão para a escola com o intuito de estudar e dos pais porque acabam cedendo à vontade dos filhos.
Infelizmente a escola não tem a autonomia necessária para atuar. No passado seria fácil coibir o shortinho, bastaria não deixar entrar sem uniforme e as famílias apoiariam a decisão. Hoje, barrar um aluno no portão sem uniforme ou com vestimenta inadequada é caso de polícia e até objeto de processo judicial.
A construção do ambiente escolar passa pela formação do indivíduo dentro do seio familiar e quando esta formação falta, a escola é acionada. Enquanto a escola discute o uniforme, o shortinho e o celular dentro da sala de aula o ensino fica em segundo plano.


          Rapidinha: Parte do prédio da E.M.E.F. Manoel Prestes de Rainha do Mar, que fora interditado ano passado, já foi demolido. Não foi um recorde de agilidade, visto que se passaram mais de 10 meses da interdição, mas é um avanço. A comunidade aguarda ansiosa a continuidade da reforma.